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ARTIGO: Entrevista do EV pra Carrie Browstein - The Believer




Carry Brownstein (guitarrista do SK - não é a vocalista, aquela é Corin Tucker):

Encontrei o EV, em Seattle, em 98, fora de uma casa de show chamada The Crocodile Cafe. Minha banda, Sleater-Kinney, estava tocando lá naquela noite e Eddie veio até nós, ficando entre mim e minha parceira de banda. Ele se apresentou e disse que se sentia entre Keith Richards e Mick Jagger. É um elogio que uma garota neste meio não costuma ouvir.
Não que o comentário dele inflou nosso ego ou foi proporcional à minha autoconsciência, mas é porque é relativo a algo que vim a aprender sobre Vedder: ele não teme ser um fã e música é um universo inteiro para ele.

Seja ao trazer os Buzzcocks para uma tour, mostrando ao seu público um grupo inglês de punk rock, que são parte dele [punk] desde o começo ou tocando uma cover do The Clash, como Know your rights, fazendo um belo trabalho em reproduzir este poderoso e triste lamento de Joe Strummer. Vedder gosta de compartilhar. Na tour que fizemos em 2003, eu vi músicos dos mais variados estilos, de Steve Earle a Cheetah Chrome dos Dead Boys, entrarem no palco com ele. Na verdade, na frente dele, já que ele se coloca no fundo do palco para assistir. Mesmo quando é só sua banda no palco, ele vai para o fundo, ou durante um solo do Mike, pegando lances do público, agitando; às vezes, ele é mais parte do público que o vocalista.

Numa noite, todos nós estávamos no palco tocando RITFW do Neil Young. Nós chegamos à pausa da canção e acho que os bateristas [Matt e a outra moça] acharam que os guitarristas iam prosseguir e vice-versa, mas no fim, ninguém fez isso. Todos pararam. Por um momento, era só o Eddie: "There are a thousand points of light", ele cantou. Não havia nada o acompanhando. Era um momento bonito e informal. Ele virou para nós, sorrindo, e disse: What the fuck? e nós entramos na próxima batida. Nós pensamos, depois, que ele poderia ter feito tudo isso sozinho, mas ele queria algo maior, ele preferia ter a música preenchendo o espaço junto com ele, e é assim que ele consegue ser um performer e um fã ao mesmo tempo.

I. Simplesmente tentar viver, é um risco ocupacional


CB: É amanhã que vc vai tentar parar de fumar? Vc quer falar sobre isso?
EV: Sim, vamos ver. Bem, é vergonhoso que eu tenha pensado que poderíamos conversar antes de eu largar. Eu ainda estou no ponto em que acho que penso melhor quando tenho um maldito cigarro na boca.
CB: Vc vai largar hoje ou amanhã?
EV: Bem, eu serei hipnotizado amanhã. Para auxiliar [no processo] de largar. Também pedirei a ela, se talvez ela possa fazer algo relativo a compor e escrever uma melhor passagem (bridge) em canções. Vc sabe, melhores passagens em canções.
*não sei ao certo o que é isso numa canção.
CB: risos
EV: Nós veremos. Quando penso sobre isso, meu. Tenho coisas de todos os tipos que eu adoraria que meu subconcsciente ajudasse.
CB: É o processo em que ela te hipnotiza e daí fala sobre vc largar de fumar e sobre como vc poderia escrever melhores bridges em canções?
EV: Sabe, estou indo lá aberto para isso. E eu acho que sou bem maleável. Acho que posso ser orientado sobre algo como fumar ou compor melhores bridges. Só sei que chega de fumar. Sabe, percebo que tenho ido para longas caminhadas e chego ao topo da montanha, estou olhando algo bonito, alguma imensa paisagem e há algo como o mais puro ar do planeta. E daí acendo um cigarro e digo: "Ah, que ótimo momento para fumar!" Então, é algo maléfico que está dominando e eu quero controlá-lo.
CB: Quando vc toca, vc sente que é um fumante em termos de cantar e pular no palco?
EV: Não. Este é o problema. Não tem me afetado muito. E sinto que posso largar isso. Mas agora tenho fumado desde quando Kurt morreu ou por aí.
CB: Foi aí que vc começou a fumar?
EV: Aquilo criou um tipo de neurose que eu precisava pacificar.
CB: Sua banda e a sua comunidade musical têm sofrido numerosas perdas ao longo dos anos, de eventos como Roskilde até a morte de amigos. Vc nunca sentiu que tocar música pode ser um risco ocupacional?
EV: Junto com aqueles que não estão mais conosco. Eu incluo relações nesta mesma coluna de perdas. É triste e duro. Mas tb o é para aqueles que trabalham com vendas, os quais têm que viajar, ou aqueles no exército. Para a maioria das pessoas, creio eu. Simplesmente, tentar viver é um risco ocupacional. Assim, não há nada para se fazer, exceto seguir em frente. Tudo está num constante estado de mudança, então, o desafio é aceitar isso e mudar junto. Aquela frase do Howard Zinn, resume bem isso: "Vc não pode ser neutro em um trem em movimento".

II - Eu não entendo pedir a qualquer tipo de artista que vc não quer saber de sua opinião pessoal


CB: Não para necessariamente entrar em política, mas eu queria te perguntar sobre sua última tour. Em Denver, um comentário sobre Bush provocou uma resposta levemente negativa de algumas pessoas no público. O quanto foi difícil para vc ser uma opinião discordante?
EV: Bem, na verdade era nossa tour, não era? Porque vcs estavam lá...
CB: Sim. Eu estava com vocês e senti isso. Vcs não têm um público pequeno, e quando vc tem uma opinião discordante ou expressa uma opinião, é ouvido por mais de 10.000 pessoas.
EV: Bem, nós deveríamos clarificar que naquela 1ª noite em Denver, nós não ouvimos nada negativo. E acho que falei com vcs no dia seguinte, quando estávamos meio chocados com as reportagens que vinham: "Público sai em resposta aos comentários anti-Bush durante show do PJ". E acho que quando mostrei aquilo para vocês e conversamos, vcs disseram que tb não viram nada daquilo.
CB: Não. Em termos do público não querer estar lá nunca mais ou isso afetando o amor deles por vcs ou por suas músicas, isto foi completamente falso. Acho que há uma espécie de silêncio do seu público quando vc fala de política, na maior parte, pq as pessoas querem ouvir o que vc diz. E acho que em Denver, havia pessoas que discordaram de vc, mas que isso não os levou a saírem.
EV: Bem, foi o que achei tb. O que achei muito interessante, foi verificar o efeito que aquela matéria imprópria, ou até mesmo irresponsável, teve sobre a percepção das pessoas. Aquilo atiçou as rádios conservadoras e tudo mais que estava nos registros da CNN ou FOX News. Esta foi a parte assustadora. Foi aí que tivemos que falar como uma banda e, vc sabe, dois caras* tinham esposas, lares, duas crianças e vivem em áreas normais que não são muito seguras. E daí ocorre todo este agito construído em torno de vc, e vc ouve todas aquelas histórias loucas como com as Dixie Chicks, as casas delas vandalizadas, os avós delas sendo abordados nas casas de repouso.
CB: Há muita distorção da verdade. E agora, em retrospecto, sabendo que não houve armas de destruiçõa em massa, parece que a mídia está parcialmente se sentindo responsável por não ter questionado esta administração sobre as perguntas certas, por nunca tê-la desafiado. Acho que as pessoas estão alertas sobre isso tudo agora.
EV: Me lembro quando isso tudo começou a surgir e se mostrar em nosso primeiro show. No soundcheck, vcs estavam tocando "Fortunate Son", e Jeff e eu estávamos sentados no fundo e sorrindo, porque tínhamos tocado aquela canção na Austrália. E, depois, em algum momento, começamos a tocá-la juntos. No fim, isto foi como uma solidariedade verdadeira diante de não importava o quê. Nós tínhamos convicções, e não importava para qual finalidade o público pagante estava lá ou a o que estavam abertos, [importava] apenas tocar a canção ou ficarmos juntos no final de RITFW ou segurar a mão de Corin. Foi empolgante tb. Ser representativo das mulheres e dos homens, ficar lá com os símbolos da paz e apenas olhar o público no final da canção, no final da noite. A coisa estranha disso é que na época era intimidante fazer isso, me sentia muito imprudente estando ali, fazendo isso. O que é interessante, isto já não seria um problema 1 ano depois.
CB: Sim, concordo. Obviamente, com um público tão grande como o de vcs, nem todos concordarão contigo e com sua opinião política. Isso nunca te incomodou? Porque ao que parece, para outras bandas, isso pode parecer muito alienante.
EV: Sim. Acho que a coisa mais frustrante é que não sei quantos. Às vezes, posso receber cartas ou algo assim. Gosto de ver os dois lados de tudo e tb terei algo desagradável como: "Apenas cale a boca e toque sua guitarra".
CB: Certo.
EV: E isso é algo que não entendo. Eu sinto como se Kurt Vonnegut, ou qualquer outro, cuja arte eu apreciei, se oferecessem alguns de seus pontos de vista particulares, se eu concordasse ou não, acho que eu ficaria curioso em ouvir e tirar algo daí. Tenho todo direito de discordar. Mas simplesmente dizer, "Ele não deveria fazer isso" ou "Com isso não vou mais ler seus livros". Com isso, não concordo. Não entendo dizer a qualquer tipo de artista que vc não quer suas opiniões pessoais envolvidas. Toda vez que menciono r'n'r como arte, eu apenas sei que Mark Arm está agitando em algum lugar. O que é bom, porque é um bom barômetro. Eu apenas acho que é algo que, para as pessoas cuja música e trabalho eu tenho sempre apreciado, tem sempre sido uma parte ou uma parcela. Então, sou na verdade uma pessoa que é de outro jeito. Eu quero ouvir aquele tipo de coisa, especialmente se eles têm dado duro para se educarem sobre estas questões.
CB: Vc acha que a música ainda tem a capacidade de ser política, encabeçar movimentos políticos ou juntar as pessoas?
EV: Sim, sabe, falei com alguém que fez música nos anos 60, e eles acham que, mesmo naquela época, ela não foi tão boa [efetiva]; e que foram apenas os sacos com corpos vindos do Vietnã que finalizaram isso [a guerra]. E Walter Cronkite, sendo o respeitável avô adotivo de nossa nação na época, veio dizer que o que estamos [os EUA] fazendo é errado. Isso provocou mais influência do que todos os movimentos pela paz. Se concordo com aquilo ou não, não sei, mas acho interessante. Estou apenas chocado pelos números de votos que houve e que Bush foi eleito por menos que 1/4 do público votante. Isto é uma pequena porcentagem das pessoas que concordaram em votar nele e em colocar um presidente na administração. E mesmo assim, o que estavam pensando estas pessoas? Não acho que as pessoas são ignorantes que pensaram que Bush Jr. - um garoto riquinho de fraternidade estudantis, fazendo negócios a vida toda, falindo-os, sendo salvo de cada mau negócio que ele afundava, fazendo negócios por causa do seu nome - como as pessoas acharam que ele seria alguém que eles poderiam se relacionar como sendo da classe trabalhadora ou como alguém com quem poderiam se sentar e tomar um cerveja? [a imprensa alegou isso na época] Eu não engulo isso. Se vc pensar em todas as pessoas que não estão votando...Este poderia ser o poder da música. Não sei o que poderia ser feito para levar as pessoas a votar.
CB: Agora, do jeito como a indústria musical está, há bandas que parecem ser meio punk ou indie, e estão nas rádios mainstream e na MTV. Na maior parte, estas bandas não parecem envolvidas com política.
EV: Acho que há uma coisa legal acontecendo. É chamada punkvoter.com, e isso, com o MoveOn.org são duas coisas muito interessantes. Eles estão fazendo coisas do tipo a Rock Against Bush tour. Eles estão de verdade falando para as pessoas sobre o que eles podem fazer.
CB: É como o Bands Against Bush?
EV: Sim, deste tipo. Eu acho que o que é nítido é que eles estão realmente propagandeando que é sobre isso (contra Bush). Vc sabe, vc quase que tem que fazer isto. "Nós temos que lidar com estas coisas hoje à noite, de uma forma ou de outra."
CB: Eu acho, em parte, embora, que eles podem estar pregando para o convertido, pq um monte de gente vai lá, porque são contra Bush. Há algo para ser dito ao não se anunciar, como eles estão fazendo, e incluir no seu set, seja lá o que vc toque. Ás vezes, eu posso falar coisas no show e perceber: "ok, todo mundo apenas aplaudiu, bem, isso foi fácil."
EV: Sim, colocando num contexto em que vc não está, necessariamente, pregando para o convertido. Mas eu acredito que, mesmo quando vc está pregando para o convertido, como vc disse, deve ficar claro quais pessoas que querem Bush fora da presidência e que não estão lá, apenas para curtir o show.
CB: Quais são seus pensamentos sobre por que as pessoas não estão indo votar, especialmente aqueles que parecem querer mudar as coisas?
EV: Bem, hoje fui para uma loja de ferragens e coloquei duas das coisas [compradas] na traseira do meu caminhão. E fui para casa, que não é tão longe de lá. E daí, desci do caminhão e fui pegá-las, e elas tinham sumido. Elas desapareceram. Eram umas hastes de alumínio e elas voaram para fora da traseira do caminhão. Então, dirigi todo o caminho de volta, olhando para as sarjetas para ver se eu podia achar estas hastes e não as encontrei, assim, tive que recomprá-las. Quando eu estava dirigindo de volta, um pouco mais cauteloso desta vez, estava pensando sobre o voto da juventude. E isto me fez pensar, que esse dirigir incauto é como as pessoas não votarem. Eu acho que eles pensam nisso com todo o tipo de precaução. Talvez o voto dos jovens em faculdades seja diferente que o voto da juventude desempregada, e eu nem mesmo sei se isto é indiferença ou algo assim. Ou é algo que eles não compreendem.
Bem, muito disso não é difícil de entender, especialmente com o advento da internet*. Há muita informação por aí, e, obviamente, não é a mesma informação que vc recebe ao simplesmente assistir as notícias regulares. E vc pode não prestar atenção a isso, mas está lá, e vc pode adquirir isto. Há pessoas falando pelo país, e há acesso a esta informação. E sinto que eles têm o futuro do país na traseira de seus caminhões. E eles estão lá na frente, dirigindo sem muito cuidado, pensando que tudo ficará ok. E daí, quando finalmente param e olham pra traseira do caminhão, não estará lá. E daí, quando voltam atrás, tentam e conseguer conquistar isso, mas podem não ser capazes de restituir isso. Eu acho que é um momento muito importante para estar participando agora.
Sério, é um momento para estar envolvido. Este é um daqueles períodos. Este é um daqueles períodos, ainda que eu não sinta isso necessariamente vindo junto.
CB: Eu concordo. Eu sinto como: "o que as pessoas estão esperando?". Um problema que vejo é que, apesar do fato das pessoas terem informação em suas mãos com a internet, isto parece como uma informação muito difusa. Notícias sobre Britney Spears se casando foram mais vistas do que o discurso do Estado da União. Eu acho que é uma faca de dois gumes ter tanta informação disponível a toda hora. Agora, as pessoas podem excluir coisas, as quais deveriam estar focando.
EV: Eu acho que talvez eles olhem o MoveOn.org e apenas pensem: "Oh, alguém está cuidando disso". Porque um monte de coisas que parecem indicar que muita gente está se unindo ou construindo meios de protesto parecem estar acontecendo neste tipo de mundo virtual. E eu sei que há contrapartes no mundo real, mas eu simplesmente questiono se há alguma passividade que é criada quando apenas visitamos o MoveOn e pensamos: "Oh, ok, está acontecendo em algum lugar", sabe?
CB: Como vc acha que podemos remover esta desconexão entre o envolvimento virtual e o envolvimento real? O que vc gostaria de ver acontecendo?
EV: A única coisa que penso é votar para tirar a administração de Bush pra fora do gabinete, seria algo tremendo. Seria uma tremenda mensagem internacionalmente, também. Eu quero dizer, se vc vai controlar algo, vc tem que tratá-lo com respeito. Eu acho que agora, esta administração tem feito o nosso país em débito com a Terra.

IV - Se havia uma resenha, ela era apenas sobre como fizemos esta coisa contra a Ticketmaster


CB: Eu acho que, para alguns artistas, o medo de assumir uma identidade política provém de não querer ser classificado como ator político ou um músico político. Isto se torna esta coisa em que, de alguma forma, sua arte não pode mais existir por si própria e ser multifacetada. Parece que algumas pessoas estão temerosas de encarar qualquer caminho de ativismo político por causa disso, especialmente sobre como a mídia começa a te representar.
EV: Isto é parte das conversas que eu e a banda tivemos naquele momento em que tudo estava acontecendo. Porque depois, nós fomos por Bible Belt, nós terminamos em Jersey e pensamos: ok, agora podemos falar um pouco mais livremente.
CB: Certo, ou tocar Bushleaguer novamente.
EV: E quando fizemos isso, eu creio que foi a maior reação negativa que tivemos.
CB: Oh, aquele show. Foi Hershey, Pensilvânia. [Obs.: os dois estão equivocados; foi Uniondale, NY]
EV: Eu acho que, depois daquele show, com um enorme contigente gritando USA, houve um pouco de gente indo embora no fim da canção sobre Bush. Naquele momento, nós conversamos sobre como era verdadeiro que estávamos envolvidos, que era verdade que compartilhávamos das mesmas crenças. Mas lembramos de como fomos para uma tour após termos ido contra a Ticketmaster, e daí se tornou a Ticketmaster tour. Qualquer coisa que as pessoas falavam ou se havia uma resenha, era apenas sobre como nós fizemos esta coisa contra a Ticketmaster; e não só fizemos, como falhamos. Porque tem que haver um vencedor e um perdedor. Pareceu que isto distanciou da música. E nós sentimos, egoísticamente, que estávamos dando duro e tocando bem, e que não era mais isso que importava nunca mais. Era sobre algo além.

V - Tenho sempre sido grato que entrei lá e fui aceito


CB: Por quantos anos, depois que vcs começaram, vcs deram entrevistas para a mídia?
EV: Bem, acho que tudo mudou quando começamos o segundo álbum. Acho que hoje ainda limitamos, mas demos algumas. Foi quando tudo começou a ficar estranho. Porque fomos envolvidos pelo processo, ao menos no nosso tipo de jornada, que foi aquela com uma grande ascensão no começo. Era um estranho sentimento de ser cooptado, e vc era apenas tipo de um produto. Vc se vê na capa de "The All-Grunge Special Issues" de alguma coisa ou de outra, com postêres soltos e tudo mais. E vc fica pensando "Bem, quem são estas pessoas? Nós as conhecemos?" E não que vc esteja interessado, mas "fomos pagos para isso?". Apenas está lá. E a única coisa amendrontante, isso para mim, é a superexposição. Eu estou superexposto.
CB: E, provavelmente, não sabem quem vc é nunca mais. Vc nunca olhou para uma revista com vc nela, e pensou: "Isto nem mesmo sou eu"?
EV: Bem, naquela época, parecia isso. Ou ir para uma festa de Halloween e ter alguém com um poster, cortado e usado como máscara.
[ambos riem]
CB: Isso aconteceu?
EV: Sim, sim. Ele pensou que isto seria divertido, mas eu estava tão sensível na época. Basicamente, normalmente, seria divertido, mas não no momento. E era duro ter senso de humor sobre isso. Senti como uma frase, que acho que há em Death of a Salesman, "Vc não pode simplesmente comer a laranja e me deixar a casca". E havia tb questões ideológicas que surgiram da
Music Television e de outros além, em que eles tinham planos e faziam as coisas de uma certa forma, e eu não queria fazê-las daquela forma. Assim, de forma a dizer não para algumas pessoas, vc acaba tendo que dizer não para muita gente.
CB: Vcs tinham noção de que tipo de música tocavam, antes de serem tachados de Grunge? Eu acho que agora há tantos gêneros de música, se tornou mais ainda compartimentalizado. E daí, este nome "grunge" foi colocado como o som que vem de Seattle. Como vc sentiu ao ter um gênero criado pra vcs pelos outros de fora, em vez de vcs mesmos classificarem?
EV: Eu acho que me senti seguro, porque senti que tínhamos nossa própria linguagem musical na qual estávamos trabalhando. E Stone e Jeff tinham tocado juntos por um longo tempo, e nós todos estávamos nos integrando nesta nova relação, e fazendo de uma forma que senti que era diferente. E senti como sendo um tipo de coisa nossa. E daí, sem querer se colocar com todas as outras bandas da época, que aconteciam de vir da mesma localização geográfica, eu costumava ver, ouvir e ler sobre o Who e o início da cena mod. Isto era quando eu tinha cerca de 15 anos, e eu pensava, "Oh, Deus, se ao menos eu pudesse ter estado envolvido!" Como seria ótimo estar numa banda que cresceu naquele tipo de coisa comunitária?" Nesta época, eu estava em San Diego, e havia umas duas coisas acontecendo, mas não era um tipo de comunidade entrelaçada. Era muito perto de LA. A comunidade meio que se acomodava, não aparecia e não dava tudo de si em um show de rock.
Assim, acabei numa situação onde havia uma comunidade e havia, de repente, um pouco de um tipo de movimento, um movimento musical, de qualquer forma. Havia bandas muito fortes e, naquele ponto, em que a atenção ainda era saudável, era muito empolgante. E, por eu ser meio que um implante, senti que, uma vez que comecei a me sentir aceito, eu fui sempre muito orgulhoso de ser daqui [Seattle]. E ainda amo Seattle e o Noroeste. Tenho sempre sido agradecido que pude entrar, fui aceito e me sinto muito orgulhoso. Me lembro de ter pensado, num momento: "Deus, ok". Eu costuma ler sobre o Who, e costumava refletir sobre este período na música e naquele período da música e pensar: "Uau, nós estamos em algo como aquilo, agora - isto é muito entusiasmante."
CB: Vc se mudou para Seattle antes do Ten?
EV: Sim, acho que foi setembro ou outubro, ou em algum momento no final de 90. Nós fomos direto aos negócios. O MLB estava pronto pra ir pra estrada ou algo assim, após o primeiro contrato deles, quando perderam Andy. Ele morreu por causa de problemas com heroína. Eu acho que eles estavam meio que prontos para prosseguir com algo. Havia muita energia lá, da perda e das expectativas deles. Eles tinham uma banda, e daí não tinham uma banda, assim estavam prontos para ter uma banda novamente.
CB: Certo. E vc fez uma audição para eles ou vc era amigo deles e disse "eu canto!"
EV: Sim!
[risos]
EV: Havia uma fita que foi enviada para mim, por meio de meu amigo Jack Irons. Eles disseram " se vc conhece qualquer cantor..." Aquela era apenas uma fita ao acaso que mandei para Seattle. Eles tinham umas faixas instrumentais que, eu acho,* foram gravadas com o Matt Cameron. E acho que metade da fita era o Temple of the Dog, e a parte que escrevi foi parar nos nossos discos.
CB: Qual a primeira canção que vc escreveu com o PJ, que vc se sentiu muito orgulhoso?
EV: Acho que a primeira da fita. Havia 3 canções naquela fita; acho que, Alive foi uma delas. E Black foi uma delas [Ed, foi Footsteps!] e Once a outra. Alive e Black são a mesma coisa do que eram [na fita]. E elas são legais. Gravamos muito, ensaiamos por uma semana e gravamos no último dia. Acho que voltei pra casa com uma fita com 10 ou 11 canções, e a maioria delas estava no álbum. E, novamente, me pareceu que muitas das coisas que havia participado antes, eram derivativas ou demais derivativas, e este parecia uma coisa nossa.

VI - Eu comecei com os Jackson 5...cresci em tipo de casa de grupo.


CB: Eu e vc jogamos Scrabble algumas vezes na turnê e notei que vcs são umas das pessoas menos competitivas com as quias eu já joguei um jogo de tabuleiro. Poderia ter sido apenas o vinho, mas há alguma área em que vcs são competitivos?
EV: Certamente não com música. Competição é saudável, se vc pode acioná-la ou afastá-la. Quando alguém fica muito convencido com a vitória; isto pode arruinar o lado positivo. Então eles devem ser destruídos [sorri]. Justiça deve ser feita. O problema é que, às vezes, eu sou este cara.
CB: Vc nunca viu a chegada e subida de bandas que são recebidas com grandes elogios e hype e desejou que vc pudesse voltar e estar lá novamente?
EV: Não. Não mesmo. Se é uma banda que gosto, eu apenas desejo que eles possam sobreviver a tudo. E admitirei que, se é música porcaria, eu desejo que eles não durem e sumam. Simplesmente porque há muitas bandas ótimas que deveriam ser ouvidas no lugar deles.
CB: Vc tocou em bandas no colegial? Quando foi a primeira vez que vc tocou na frente de pessoas?
EV: Eu me lembro de alguma espécie de festa no quarteirão ou algo assim. Algum tipo de festa pequena em San Diego. Nós tínhamos umas duas pequenas bandas. Eram 5 caras e nós todos tínhamos empregos em drogarias ou coisas do tipo. Era muito ruim, porque um cara gostava de The Cars, eu gostava de Who e o outro cara gostava muito dos Eagles. Então, uugh, Deus!
CB: Não dá pra fazer Eagles-Cars-Who.
EV: Não, era terrível. Era muito terrível.
CB: Então, seu baterista cantava e vcs tinham tecladista?
EV: Sim, que gostava de Styx.
CB: É?
EV: Então, isso é bom. Vc precisa passar por isso.
CB: É verdade. Vc se lembra da primeira vez que vc ouviu sua voz gravada?
EV: Bem, isto algo que eu fazia desde muito novo, porque sempre gostei de gravadores e coisas deste tipo. Assim, eu sempre escrevia e, na verdade, me lembro de compor canções desde muito novo. Escrevendo uma frase e escrevendo setas sobre ela, e daí duas setas se eu tivesse que cantar mais agudo. E isso era quando eu tinha uns 7 ou 8 anos. Meu pai morreu de esclerose múltipla e não conheci meu pai até depois que ele morreu. E eu acho que ele era músico, e isso talvez revele alguma coisa genética*. Ele era um cantor de hotéis
CB: Sério?
EV: Bem, ele tocava com uma xícara sobre o piano e coisas deste tipo.
CB: Vc nunca ouviu algo que ele tenha gravado?
EV: Sim, eu tenho uma fita. E ela tinha uma canção como as de Gordon Lightfoot, ele tinha um tipo de voz como a de Gordon Lightfoot. E aí tinha uma que ele compôs e colocou meu nome nela, que era muito legal de ouvir.
CB: Quando vc nasceu, ele ficava estava próximo de vc? Ou seus pais de divorciaram?
EV: Eu acredito que ele estava. Eu creio que ele esteve por perto por 1 ou 2 anos, os quais não consigo relembrar. Então, quando se divorciaram, minha mãe casou de novo. E daí nunca mais se falou nele novamente.
CB: Isto é muito intenso.
EV: O que era interessante. Porque a teoria era, por eu ter 3 irmãos mais novos, eles não queriam que nós sentíssemos que éramos diferentes. E acho que funcionou: sem dúvida, nós éramos muito próximos.
CB: Vc nunca tocou com seus irmãos em qualquer tipo de evento familiar?
EV: Sim, nós tocamos umas canções no aniversário de 60 anos de minha mãe. Nós tocamos "Long May You Run" [Neil Young] e Let My Love Open the Door [P. Townshend], eu acho. Foi muito agradável.
CB: Eu adoro esta canção do Townshend. Que tipo de música vc ouvia quando estava crescendo, especialmente, vocalistas? Quem te inspirava?
EV: Bem, comecei com Jackson 5. Cresci em um tipo casa de grupo [orfanato], onde tínhamos irmãos negros e irmãos irlandeses, e tinha um porão embaixo. Isto foi no final dos anos 60 e começo dos 70, havia um monte de discos da Motown ao redor. Era em Chicago, Sly and the Family Stone e qualquer coisa do selo Motown. E Stevie Wonder. E daí teve os Jackson 5, com os quais eu pude me relacionar porque eles eram garotos. Daí fui disto para The Last Waltz e todas as pessoas deste filme. Havia Bob Dylan, Neil Young, Ron Wood, Muddy Waters e Van Morrison. Todas estas pessoas se arraigaram em minha cabeça como sendo ótimos. E daí eu costumava roubar os discos do meu tio*, e ele me deixava, o que era ótimo. Ele apenas chamava minha mãe e dizia: "é aí que está o disco?". E ela dizia: "sim". Era legal aos 8 ou 7. Eu podia ouvir Woodstock e colocar Country Joe and the Fish com todos meus amigos.
CB: Vc participou da cena punk do sul da Califórnia de alguma forma? Quando vc falou de festas de rua, foi u indicativo desta cena? Ou eram skatistas e surfistas?
EV: Sabe, não havia nenhuma cena. Eu estava em um tipo de subúrbio, e as ondas não atingiam aquela distância ou algo assim. E eu acho que a outra coisa foi que meus pais se divorciaram quando eu era adolescente e tive que ter um emprego. Assim, eu não podia ter um moicano. Havia na minha escola um outro garoto que era do tipo rebelde punk rock e ele tinha o visual. A única coisa que eu podia fazer era vestir minha camisa estilo mod ou minha camiseta do PIL. Mas eu tinha que trabalhar na drogaria e em serviços de construção e coisas deste tipo. Sim, era propício para isso. Até o Thurston Moore [Sonic Youth] me perguntou sobre isso. Ele disse: "Deus, vc estava bem propício pra aquilo". E eu disse: "sim, perdi essa".
CB: Estava acontecendo a sua volta.
EV: Sabe, eu desejaria ter sido parte daquilo. Teria sido ótimo e isto, provavelmente, teria me mudado um pouco musicalmente. A coisa mais empolgante pra se fazer onde eu estava, foi ver a apresentação à meia-noite de Dance Craze. Eu me relaciono com todos estes garotos por aí, que ao menos agora podem comprar suas músicas pela internet. Eu acho que o Jeff Ament foi do mesmo jeito, pedindo música por catálogo. Ele cresceu numa cidade super pequena. Vc tinha que se virar. Não havia uma cena de fato, e vc ficava, provavelmente, um pouco no ostracismo, ou as pessoas não se relacionavam contigo. sabe, todo os outros estava ouvindo a, Deus, sei lá o quê - Journey.

VII - É um crédito do público que eles prosseguiram conosco


CB: É uma tentativa de se ter a música bem acessível, que está por trás da idéia ou do ímpeto em lançar todas aquelas bootlegs dos shows ao vivo? Ou é mais uma resposta para restringir a quantidade maciça de bootlegs ilegais ou downloads?
EV: Sim, foi um pouco das duas coisas. Eu mencionei antes, que eu era muito interessado em gravadores. Eu trabalhava numa drogaria. Eu trabalhava lá, quando surgiram os primeiros Walkman. Eu comprei um com meu salário. E daí o primeiro Walkman [para] gravação, eu levava às escondidas para os shows apenas como uma coisa para meu próprio uso. Eu nunca fiz cópias ou qualquer coisa. Eu apenas estava gostava muito disso. Eu simplesmente gostava muito de poder recordar. Às vezes, tanta energia vem dos shows, especialmente dos bons, que são muito comoventes. E aquela energia, não importa o quanto o show seja ótimo, se dissipa em duas semanas ou um mês. E aquela era a maneira pela qual eu me colocava de volta lá, naquele ótimo lugar. A primeira vez que vi o Who foi em 1980. Eu tinha 15 anos ou por aí; na primeira parte do show, eu não podia acreditar no fato de que aqueles 4 caras estavam ficando na mesmo espaço em San Diego. Naquele momento, o jeito em que eu pensava a geografia e a forma com que eu estava sendo criado, eu me sentia intimidado pelo resto do mundo. Eu nunca pensei que eu viajaria. Isto não era parte da minha formação. Londres poderia bem ter sido Marte, sabe?
CB: Certo.
EV: E era de onde vinham os deuses do rock. Sério, a empolgação daquilo, de vê-los pela primeira vez. Conseguir uma boa gravação de um show é algo duro de se fazer. Inevitavelmente, há alguém gritando ou discutindo com a namorada perto de vc. Até mesmo as pessoas que estão com vc ficam falando no microfone. E vc fica: "Oh, Deus, eu sei que é só um show, mas vou ouvir esse troço umas 350 vezes!
CB: Sim, e também é tão interessante quando eu encontro pessoas carregando seus próprios equipamentos de gravação. Eu posso compreender a razão por trás disso, mas o som é tão ruim. Me lembro de fazer isso em Seattle, indo pros shows quando eu era adolescente e gravando coisas, ouvindo-as várias vezes de novo. Elas não tinham nenhuma fidelidade [de som] qualquer, apenas estática.
EV: Sim. Não, vc tem mesmo é que colocar o fone de ouvido e fechar os olhos. Seus ouvidos tinham que fazer o serviço, e daí vc conseguiria tirar algo disso.
CB: É totalmente algo mais pra capturar a experiência e ter algum tipo de registro de realmente ter estado lá. Depois, saímos em tour com vocês e adquirimos algumas das bootlegs. Só de poder ouvir um show com mais nuance, ouvir algo que não ouvi da primeira vez ou até mesmo ter suas brincadeiras do palco lá, é empolgante. E posso ver que seus fãs, de alguma maneira, devem se sentir especiais. Ele podem experenciar qualquer show que eles quiserem, se puderam ou não estar lá. Isto parece como uma das muitas coisas que vocês fazem, em termos de ter uma conexão mais direta com seus fãs. Havia uma conexão que apenas ocorria entre eles e vocês. Não há nada abrandando isso. Eles não lerão sobre vocês ou uma entrevista. Eles não verão um vídeo na MTV. De repente, a experiência se tornou a experiência ao vivo, que é muito única.
EV: Bem, nós certamente reduzimos nosso público um tanto, especialmente nosso público comprador de discos, a ponto de sermos bem sucedidos em um perfeito ato de sabotagem.
CB: Vc se lembra quando vocês decidiram, como vc estava dizendo antes, dizer não para a mídia e a MTV? Estas instituições criticaram vocês? E vocês experimentaram críticas de sua gravadora e de seu empresário?
EV: Acho que é o que acontece, quando algo faz sucesso, daí um monte de gente leva crédito por isso de tantas maneiras, que tira o crédito de vc. Eu nem mesmo acho que é ego, mas se está pensando, se está apenas dizendo que fomos um produto com marketing bem-sucedido. E isto afronta completamente com o que nós estamos vendo quando tocamos e recebemos reações do público, que não acho que receberíamos normalmente. Eu acho mesmo que algo muito especial estava acontecendo, sabe, obviamente havia algum marketing envolvido e alguma exposição na MTV, e havia todas estas coisas. Mas já que as pessoas estavam inseridas, elas não tinham nada a ver com isso. Vc quer que o poder esteja na música e o crédito vá para a música, e a conexão com as pessoas venha dos shows. Vc quer afastar aquilo para longe e dizer: "Ok, nós não somos apenas um sabonete com um pacote que vc criou e que agora está vendendo cópias e te dando um monte de dinheiro". Vc entende o que estou falando? Há mais coisas acontecendo aqui, e isso que interessa. Não acho que eles entenderam isso. Ou estavam entendendo ou eles iam dizer que entenderam mais ou menos.
CB: De certa forma, vocês provaram que isto era verdade. O sucesso de vocês e a conexão de seus fãs com a música não foi dependente da mídia. Vocês, de alguma forma, mantiveram-se longe de vídeos, com não muita transmissão em rádios mainstream e sem um imenso estardalhaço da imprensa a cada lançamento de seus álbuns; uns seguidores completamente devotos. Isto parece que vocês estão ligados em uma forma de pensar a música, uma ideologia, que os fãs compartilham com vocês. Indo aos seus shows, vendo seus fãs, constatei que ninguém lá se importa com a MTV. Isto fez todas aquelas coisas parecerem muito fúteis.
EV: É um crédito do público que eles prosseguiram conosco. Não poderíamos ter feito nada disso sem eles. E acho que isto aconteceu antes. Talvez até mesmo com os Monkees. Vc sabe, os Monkees queriam tocar nos discos deles, e queriam tocar suas próprias canções e ninguém nunca ouviu este disco. Acho que bandas tem feito e tentado isso antes, mas acho que nós fomos apenas um tanto afortunados.
CB: Vc sente que isto tem valido a pena? Vocês tem trocado algumas destas coisas, a maciça quantidade de dinheiro e o estrelato neste sentido amplo, por ter mais controle sobre sua arte.
EV: Bem, a coisa legal sobre o dinheiro, é que vc pode fazer coisas boas com ele. Eu ainda acho que, se algo precisa ser feito ou nós precisamos levantar dinheiro para alguém no corredor da morte, como o caso West Memphis Three, nós podemos encontrar meios de fazer isso. É mais difícil do que só preencher um cheque, mas vc ainda pode ir atrás e fazer.


     
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